No tópico anterior, eu propus que a longa noite foi um inverno vulcânico, mas sem falar do que poderia tê-la causado do ponto de vista mágico. Neste, eu vou tentar descrever uma possível influência para os eventos mágicos das Crônicas e como eles levaram à longa noite.
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Falar da magia das Crônicas é difícil porque George se recusa a dar maiores explicações sobre como ela funciona: quais são os limites, o que ela pode fazer, se ela é permanente ou precisa ser “renovada” de tempos em tempos, etc. Para ele, é suficiente que um ato mágico cause espanto, admiração, que seja irreprimível e incontrolável, enquanto transmita ao leitor uma sensação de possibilidade e veracidade.
Há alguns anos, ele disse que o título da série veio de um poema (Fire and Ice) de Robert Frost, que fala que o mundo seria destruído por gelo (ódio) ou fogo (paixão). Supostamente, a inspiração de Frost foi A Divina Comédia, o épico que narra a jornada de Dante Alighieri no Mundo Inferior, domínio de Hades, o deus dos mortos na mitologia grega.
O ato mais famoso de Hades foi o rapto de sua sobrinha Perséfone, que deu origem às estações: depois do sumiço de sua filha, Deméter (deusa da agricultura), negligencia seus deveres e diz que a vida só floresceria quando tivesse Perséfone de volta. E depois de Hélio (o sol) dedurar Hades, Zeus não teve escolha a não ser obrigá-lo a devolver Perséfone; antes de partir, ela ingeriu algumas sementes de romã (há quem diga que Hades a enganou, há quem diga que Perséfone quis ficar com ele e ela ajudou Hades a forjar o rapto para tirar Deméter do pé deles), o que exigiria que ela tivesse que voltar ao Mundo Inferior. No tempo que ela passa lá, o inverno começa, mas quando ela volta para a companhia da mãe, a primavera chega. Moral da história: não mexa com a mãe natureza. (Antes de eu esquecer: essa história é tão evocativa do rapto (“rapto”?) de Lyanna, mais ainda porque o filho dela foi “morto” por um cara chamado de Velha Romã, um fruto que simbolizava o ciclo de vida e morte.)
Apesar de respeitado e adorado, Hades também era muito temido e os gregos evitavam chamar sua atenção (vai que ele estava de mau humor?). Ainda assim, vez ou outra, um herói invadia o Mundo Inferior para pedir que Hades deixasse um ente querido voltar ao mundo dos vivos. Um deles foi Orfeu, filho de Apolo e Calíope. Tendo herdado os dons artísticos de seus pais, ele era um exímio tocador de lira (e/ou harpa, depende de quem você perguntar... Oi, Rhaegar!) e conseguiu tocar uma música tão comovente que convenceu o tio Hades a libertar a alma de sua esposa, Eurídice, com o aviso que Orfeu devia guiá-la de volta ao mundo superior sem olhar para trás. Orfeu obedeceu, até que se distraiu: Eurídice foi puxada de volta para o mundo dos mortos, daquela vez, para ficar.
Os antigos gregos acreditavam que Orfeu foi o fundador do orfismo, um culto baseado na adoração a Dionísio (de quem o próprio Orfeu era considerado uma reencarnação). Segundo os seguidores do culto, os humanos tinham uma natureza dualística: seus corpos vinham dos Titãs (através de suas mortes pelas mãos de Zeus, vingando o assassinato de Dionísio) e suas almas de Éter, o deus da criação, que deu o nome ao quinto elemento (vocês se lembram deles: fogo, água, terra e ar), também chamado de quintessência. Os adoradores de Éter acreditavam que o deus permeava todo o plano existencial e desfez a desordem do Caos para que o Universo emergisse.
Como a magia da série parece ter uma “base” elemental, este é o caminho que eu vou seguir.
Éter/quintessência também era o ar puro que os deuses respiravam; contínuo, ele existia em todos os lugares, em todos os tempos, sem amarras, indomável, imprevisível, incontível... que é exatamente o que Martin pretende que sua magia seja. Assim, para o propósito deste tópico, a magia da série é o mesmo que éter/quintessência.
Do Éter, fumigação: açafrão
Ó alto teto de Zeus, com eterna força indestrutível,
parte das estrelas, do sol e da lua,
a tudo subjuga, ignívomo, uma centelha em todos os seres,
altivisível Éter, melhor elemento do cosmo;
ó rebento esplêndido, luzidio, fulgente d'estrelas, (5)
invoco-te e suplico que sejas temperado e sereno.
(Tradução de Rafael Brunhara, 2012)
Éter/magia é tão transcendente que rompe as barreiras do divino para se misturar aos mortais e acender neles a chama da vida. A lenda de Azor Ahai parece uma transposição disso, pois tem a alma (a centelha) de Nissa Nissa como uma fonte de calor absorvida pela Luminífera, com a qual AA vence a longa noite; AA é, de certa forma, o último herói de Asshai. Localizada numa região que também parece ter sofrido um evento climático causado por magia (mas tão na antiguidade a ponto de ser pré-histórico), esta cidade fica na boca do Estreito de Açafrão, o tempero que:
- Era usado pelos adoradores de Éter em seu ritual de purificação
- É extraído da flor que Perséfone estava colhendo quando Hades a abduziu
- Simbolizava a dor que um deus (Hermes, enviado ao Mundo Inferior para levar Perséfone de volta ao Olimpo) sentiu ao perder seu amor para a morte (Crocus, transformado na flor que dá origem ao açafrão).
Os antigos gregos acreditavam que a quintessência ligava os deuses aos mortais, pois, como dito, o éter rompia essa barreira entre o divino e o mundano. Para simplificar as coisas, eu proponho que o que os personagens consideram deuses seja, na verdade, magia (ou, talvez, antigos praticantes de magia adorados como deuses: parece ser o caso dos deuses antigos, como visto no ritual para vincular Bran ao represeiro). Também sugiro que o uso de magia não tem um efeito efêmero, mas duradouro e multiplicador, em função de sua natureza eterna e indestrutível; o máximo que se pode fazer é enfraquecê-la, jamais aniquilá-la.
Isto dito, apesar de eu ter focado em vulcões (porque eu acho que uma erupção vulcânica gigantesca causou o inverno vulcânico que caracteriza a longa noite), todos os elementos da natureza sofrem os efeitos de magia, pois ela altera seu funcionamento, talvez até apressando algum evento climático que já estava prestes a acontecer naturalmente.
Além disso, eu também suspeito que um ato mágico acaba alimentando o outro, gerando uma espécie de bola de neve: quando ela atinge a barreira ao final do morro, ela explode, dispersando seus componentes por todo lado — assim como os vulcões e piroclastos. Desta forma, a longa noite não foi causada pela aparição dos Outros, a queda de uma pedra escrota do céu, o congelamento do Roine, o/a [complete o espaço em branco], mas de uma confluência de eventos mágicos anteriores dos quais a longa noite se tornou a consequência.
Talvez a longa noite (e cenários semelhantes, como a Perdição) pudesse ter sido evitada, se os praticantes de magia tivessem sido mais cuidadosos e evitado praticar magia de sangue, a mais potente forma de magia. Os livros são cheios de diálogos aconselhando cautela, remetendo ao aviso que Hades dá a Orfeu e é ignorado num momento de descuido:
— Não é questão de ouro ou cavalos. Isto é magia de sangue, senhora. Só a morte pode pagar a vida.
[...]
— É preciso sair. Quando eu começar a cantar, ninguém deve entrar nesta tenda. A canção acordará poderes antigos e escuros. Os mortos dançarão aqui esta noite. Nenhum vivente deve vê-los. (A Guerra dos Tronos, Daenerys IX, cap. 64)
— [...] Gorghan de Velha Ghis escreveu um dia que uma profecia é como uma mulher traiçoeira. Mete o seu membro na boca, você geme de prazer e pensa, “que maravilha, que agradável, que bom isto é”... E então seus dentes se fecham e seus gemidos se transformam em gritos. É essa a natureza da profecia, Gorghan disse. A profecia sempre arranca seu pau a dentada — mascou durante algum tempo. — Mesmo assim... (O Festim dos Corvos, Samwell V, cap. 45)
— Certa vez, Dalla me disse uma coisa. A irmã de Val, esposa de Mance Rayder. Ela disse que a feitiçaria era uma espada sem cabo. Não há jeito seguro de pegá-la.
— Uma mulher sábia. — Melisandre se levantou, sua túnica vermelha movendo-se ao vento. — Mas uma espada sem cabo ainda é uma espada, e uma espada é uma coisa boa quando os inimigos estão por aí. [...] (A Dança dos Dragões, Jon VI, cap. 28)
Tradução: não precisa de muito para transformar uma centelha numa fogueira e uma fogueira num incêndio. No caso da longa noite, a criação dos Outros foi a gota d’água, o último grande ato de magia de uma série de eventos que a precederam e possibilitaram.
Em História Antinatural, Barth sugere que praticantes de magia capturaram wyrms de fogo e os cruzaram com serpes para produzir dragões, criaturas mágicas que cospem fogo (como os wyrms) e detêm a forma física das serpes: “fogo feito carne” (A Fúria dos Reis, Daenerys II, cap. 27), de acordo com Quaithe. Como Martin diz que Barth acertou muitas coisas, eu suspeito que a criação dos dragões seja uma delas e a criação dos Outros ocorreu do mesmo jeito, mas com o elemento água (conferindo poderes sobre o gelo) e um prisioneiro dos primeiros homens (dando forma).
Se algum período mais prolongado de tempo se passou entre a criação e a rebelião dos Outros, eu não posso dizer, apesar de suspeitar que sim. Os primeiros homens perturbaram a magia ao libertar as almas dos videntes verdes ligados aos represeiros, os filhos fizeram o mesmo ao quebrar o Braço de Dorne e produzir o Martelo das Águas e, por fim, os Outros começaram a criar wights. Eu suspeito que o inverno vulcânico que caracterizou a longa noite e o elemento surpresa os convenceram que podiam se livrar dos filhos da floresta e dos primeiros homens, uma vez que o plano dos filhos sempre foi destruí-los (já que obsidiana é a única fraqueza conhecida deles).
Ideias?