r/jovemedinamica Patrão 17d ago

Desabafo A Mentalidade Ultrapassada dos Empresários Portugueses: A Minha Experiência com o Teletrabalho

Olá a todos.
Criei esta conta throwaway porque receio que possa perder clientes por causa deste desabafo.

Sou homem, tenho 33 anos, e para poder explicar melhor o que quero dizer, vou dar um pouco de contexto sobre a minha vida. Em 2018, quando tinha 27 anos, trabalhava numa empresa de informática muito tóxica, com um patrão que era um grande filho da… Naquela altura, fartei-me de trabalhar para outros e decidi apostar em mim, abrindo uma empresa de consultoria informática. Comecei com aquilo que sabia: desenvolvimento e suporte do sistema PHC. Graças ao trabalho árduo que fiz na minha última empresa, muitos clientes que pertenciam ao meu antigo patrão decidiram apostar em mim. Foi graças a eles que criei as bases para o que tenho hoje. Atualmente, tenho uma empresa que oferece vários serviços informáticos e já conto com 20 funcionários.

Em 2020, apesar de ter sido um ano horrível para muitos, para mim foi uma reviravolta. Como sabem, a pandemia forçou muita gente a trabalhar remotamente. E, honestamente, percebi que não precisava de gastar 1200 euros por mês num escritório físico no Porto (eu vivo a 1h30 do Porto) e que os meus funcionários estavam mais produtivos do que antes. Na altura, só tinha quatro funcionários e decidi mudar a forma como geria a empresa. Fechei o escritório que tinha no Porto e comecei a gerir a empresa a partir de casa. Até converti parte da minha garagem num escritório, para não incomodar a minha mulher, que também trabalha remotamente.

Disse aos meus funcionários que, a partir de agora, podiam trabalhar a partir de casa e ter flexibilidade de horário, desde que estivessem em acordo com o cliente. Como a produtividade aumentou, também a faturação cresceu. E, à medida que os lucros subiam, fui introduzindo mais benefícios para os funcionários: seguro de saúde, renting de carros através da LeasePlan para os que precisavam de se deslocar até clientes, prémios mais frequentes… O que aconteceu? A produtividade continuou a aumentar, comecei a faturar ainda mais e ganhei mais clientes. Comprovei aquilo em que sempre acreditei: se tratares bem os funcionários, eles tratam bem do teu negócio.

Claro que não sou perfeito. Já cometi erros, como qualquer humano, mas aprendi com eles.

Naturalmente, tenho clientes que, de vez em quando, precisam que um dos meus funcionários vá às instalações deles. Por isso, alguns dos meus funcionários trabalham num regime híbrido, mas sempre com flexibilidade, desde que o trabalho seja feito.

E agora, aqui está o motivo do meu desabafo. Faço parte de uma associação de empresários do meu concelho e, recentemente, tivemos um evento que incluiu um jantar. No jantar, sentei-me numa mesa com mais quatro empresários e as respetivas esposas. A idade deles variava entre os 50 e os 68 anos. Eram empresários do setor da metalurgia, contabilidade, automação e moldes.

Um dos temas da conversa foi um empresário de uma fábrica de moldes que obrigou sete funcionários que estavam em teletrabalho a voltar ao escritório. Como resultado, quatro deles apresentaram carta de demissão. Ele começou a queixar-se de que, hoje em dia, ninguém quer trabalhar e que toda a gente quer uma vida fácil.

Perguntei-lhe porque tinha tomado essa decisão, e ele respondeu que não saber o que os funcionários faziam durante o dia lhe causava muita ansiedade. Disse que ficava a pensar se, em vez de trabalharem, estavam a fazer outras coisas. Admitiu que o trabalho aparecia feito, mas que, mesmo assim, sentia ansiedade por saber que os funcionários estavam em casa. Para ele, sempre foi natural trabalhar num escritório, porque assim tem a certeza de que toda a gente está a trabalhar.

O resto dos empresários concordou com ele e disseram que eram contra o teletrabalho. Então, aproveitei para explicar o sucesso que tive ao implementá-lo e ao dar mais flexibilidade aos funcionários. Dos quatro empresários, apenas um me disse que gostou da minha perspetiva e deu-me os parabéns pelo sucesso. Os restantes ficaram em silêncio e, pela expressão deles, não gostaram do que ouviram.

Serei eu o único a pensar assim? Sei que, em Portugal, estamos um pouco atrasados no tempo e que muitos empresários ainda vivem no passado. Mas quando é que vão perceber que, hoje em dia, muitos empregos podem ser feitos a partir de casa?

Não posso falar muito abertamente sobre isto porque muitos dos meus clientes ainda gerem as suas empresas à moda antiga e tenho medo de perder esses clientes.

De qualquer forma, agradeço qualquer opinião que possam dar sobre o assunto.

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u/Agrafo 17d ago

Trabalho para a área dos moldes (inovação e apoio à indústria dos moldes) e recentemente altas patentes disseram me que os empresários da área já perceberam que o teletrabalho não funciona e é um prejuízo para as empresas. Tentaram me vender essa ideia.

Há uma campanha de desinformação e desincentivo ao tele trabalho cada vez mais forte parece me.

Especialmente no setor dos moldes que é um indústria com pensamento extremamente fechado e antiquado. Tal como os têxteis, calçado etc estão a ter problemas na contratação e atração de novos talentos/técnicos mas recusam se a aceitar que é pelas políticas ultrapassadas deles. Não é fora de comum exigirem horas extra mesmo não havendo trabalho que as justifique por exemplo.

Recentemente também assisti a um painel em que os oradores diziam que estão a ter problemas com falta de sangue novo porque o trabalho não é desafiante o suficiente.

Alguns setores estão em queda com a falta de mão de obra, mas perceberam que se abriu a porta dos imigrantes desesperados portanto está tudo bem, é só pedir ao governo que lhes facilite a entrada.

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u/Ancient_Gur_4920 Patrão 16d ago

Obrigado pelo teu comentário! Concordo que há setores onde o teletrabalho não é viável, especialmente em funções que exigem presença física, como operações de máquinas, inspeções e controle de qualidade. No entanto, muitas empresas desses setores ainda poderiam flexibilizar funções administrativas, de inovação ou suporte técnico, mas resistem por mentalidade, não por necessidade real.

O que mencionaste sobre a dificuldade em atrair novos talentos é exatamente um reflexo disso. Se insistirem em manter práticas antiquadas, vão continuar a perder profissionais qualificados para empresas mais adaptadas às novas realidades do trabalho.

Também já percebi que há uma certa narrativa contra o teletrabalho, o que me faz pensar que muitos empresários preferem justificar as suas dificuldades com ‘falta de mão de obra’ em vez de se adaptarem às mudanças do mercado.

Obrigado por partilhares a tua visão, é bom saber que há mais gente atenta a este problema!