r/portugal Aug 16 '23

Desabafo / Rant Chefe workaholic sem noção

[Contexto] - Eu (f/27) comecei a trabalhar numa empresa, há mais de 3 meses, com a promessa de contrato e trabalho híbrido. Nada disso aconteceu até agora. - A chefe (f/60s), workaholic, faz noitadas a trabalhar e chega ao escritório às 4/5 da manhã. Quer que todos sejam como ela.

[Rant] Como disse, estou nesta empresa há mais de 3 meses sem contrato, sem fazer descontos, nada. Já perguntei à chefe se podia fazer uns dias a trabalhar em casa, sempre a dizer que não.

No primeiro mês, já passado um tempo, a chefe lembrou-se que poderia aproveitar de uma bolsa de estágio profissional, eu inocente fui aceitar. Até hoje ainda não foi fechado o processo. Hoje perguntei à chefe de quanto tempo seria o estágio, ela não soube responder e foi fumar. Voltando da fumaça, senta-se ao meu lado e começa a falar: "Tu só vens cá pelo dinheiro e fazer horário." "Eu ia comecar a dar-te sobrecarga de trabalho, saías mais tarde e ias ter de fazer fins de semana." (Isto só a receber a bolsa do estágio).

O estágio oficialmente seria de design gráfico, sendo a licenciatura que eu tenho. Mas o grande foco da chefe é marketing, algo que eu nunca liguei nem gostei. Desde o início que a avisei que não era o meu forte e ela própria sabe disso. Mas acaba por me dar sempre na cabeça quando não sei alguma coisa ou faço algo errado. Eu não ficaria chateada se fosse um dar na cabeça em que eu aprendesse algo, mas nunca é o caso. (A empresa não é nenhuma agência, é de consultoria SAP. )

Se já o estava antes, agora então é que fiquei mesmo fdd da cabeça com isto. Fiquei de lhe dizer se quero fazer estágio afinal, ou não. Obviamente que depois daquelas e outras palavras fiquei ainda com menos vontade de lá ficar.

Pronto, de momento não consigo pensar em mais nada porque foi muito recente e tenho a mioleira toda baralhada. Estejam à vontade para partilhar histórias e experiências do género.

EDIT: Sim, eu recebo...debaixo da mesa. E o porquê de eu ter ficado lá tanto tempo: preciso mesmo do dinheiro, quase que numa situação de desespero. Vivo bastante longe dos pais, tenho tudo para pagar e logo no sítio mais caro do país. Eventualmente irei ter de voltar para casa, se não conseguir dar a volta a esta situação. Obrigada a todos pelos comentários!

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u/GoncaloTR Aug 17 '23

O desespero é tão grande ao ponto de perder o espírito crítico?

Não sei que trabalhos são estes sem contratos prévios.

E aproveito esta oportunidade que o empregado esconder as condições do contrato e o salário dos outros só ajuda o patrão. Lutar contra isso é que é lutar contra a má cultura do trabalho, jamais será um sindicato filiado ao pzp a fazê-lo pelo empregado.

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u/besmarques Aug 17 '23

Num país com quase 20% da população na pobreza ainda há quem pergunte porque há desespero...

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u/Matty359 Aug 17 '23

Parem de ser pobres!!!!!

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u/[deleted] Aug 17 '23 edited Aug 17 '23

Sim e não.

Uma pessoa verdadeiramente pobre não se dava ao luxo de estar 3 meses sem receber. Por esta altura já estava a trabalhar num Continente da vida na pior das hipóteses.

Este caso, como todos os casos escravocratas que envolvem recém-licenciados, está mais relacionado com as garantias prestadas pelo Banco da Mãe e do Pai S.A., que permitem que uma pessoa ande a trabalhar só para aquecer, mesmo que o próprio Banco passe por dificuldades.

Somos uma sociedade que decidiu que a entrada no mercado de trabalho deve ser subsidiada, sempre, pelos pais.

Por outras palavras, os pais dão subsídios às empresas para os filhos trabalharem. E quem não tem esses pais perpétua ainda mais o que já é uma das sociedades mais desiguais da Europa.

Afinal de contas, como é que até os putos que vão para os empregos com maior remuneração "estável" inicial da praça logo após a licenciatura / mestrado (eg os escritórios de advogados que todos sabemos, as consultoras da vida, etc) recebem 1500€ líquidos na melhor das hipóteses?

"Ah, isso é muito para a média nacional".

Migo, atendendo a quanto uma pessoa na mesma função recebe aqui ao lado em Espanha (nem vou falar no Centro/Norte da Europa), e aos custos de Lisboa, até essas pessoas com empregos "bons" levam um lifestyle que só é alcançável porque têm o Banco do Pai e da Mãe S.A. por detrás.

Daí até chegarmos ao exemplo ao absurdo que é o do OP não demora muito. Foi normalizado, em Portugal, que uma pessoa após a licenciatura não pode receber nada de jeito, e até os que recebem alguma coisa não recebem assim tanto quanto isso face ao que fazem.

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u/besmarques Aug 17 '23

Não vi nada no post que indique que não está a receber. Não está é a receber de forma legal. Não tem contrato nem faz descontos.

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u/[deleted] Aug 17 '23

Isso não afeta em nada o que disse.

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u/besmarques Aug 17 '23

Como não se o teu argumento começa com "não se dava ao luxo de estar sem receber". Lol

Todo o resto da tirada sobre a razão dos ordenados serem baixos é um pouco offtopic para este post.

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u/[deleted] Aug 17 '23 edited Aug 17 '23

Agora é que vi que escrevi isso. Corrigendo: "não se dava ao luxo de estar sem receber ou não ter descontos e/ou contrato assinado 3 meses depois de iniciar funções".

Em todo o caso, tu é que falaste do factor pobreza enquanto explicador de situações como a do OP.

O que disse mais abaixo não é offtopic, é a razão mais pertinente para a existência generalizada de situações como a do OP entre pessoas com formação superior. Duvido imenso que o OP receba mais do que o SMN e que não receba apoio dos pais.

Para ser claro, não estou a criticar o OP nem a culpabilizá-lo por isto (pelo contrário, ele é a vítima da sociedade como a construímos), mas é preciso haver uma conversa séria sobre a raiz cultural dos salários baixos em Portugal.

Ninguém decide ter uma "cultura de baixos salários" ou uma cultura de precariedade laboral. Há razões estruturais para a existência dessa cultura - e essas razões estão relacionadas com o que disse.

Quem é realmente pobre e sem apoios não tem sequer acesso a esse apoio e precisa de mais estabilidade e/ou "autonomia" laboral para não acabar na rua. Por essa razão, em vez de procurar um estágio manhoso, é forçado a trabalhar num Continente ou a conduzir um Uber até conseguir uma vaga no referido Continente.