Sim. Aversão ao risco. Inteiramente compreensível, até porque é de facto uma actividade de risco. Não podem é depois lamentar a ausência de recompensa associada à ausência de risco. É uma escolha. Como todas as escolhas na vida, faz-se a escolha e vive-se com os resultados, sem terciarizar a culpa.
Falta de capital, falta de oportunidade, falta de interesse. Normalmente são estas 3.
Risco é um factor com pouca relevância em Portugal considerando a quantidade de "empreendedores" que herdaram as suas empresas ou as começaram com fortunas dos pais. Não estás na Holanda onde o empreendimento começa de baixo.
Não podem é depois lamentar a ausência de recompensa associada à ausência de risco.
Na verdade podemos, considerando que:
Ser empregado também é um risco (risco de não haver progressão na carreira ou salarial, risco de ir para o olho da rua se a empresa vai mal e o patrão não é transparente, custo de oportunidade de estar numa empresa e não noutra, risco de o seu trabalho passar a ser redundante com os avanços tecnológicos, etc etc).
E 2. Se portugal fosse um país decente, ser assalariado não seria o sinonimo de pobreza permanente que é. Mas já sabemos que Portugal é uma bandalheira onde tudo se permite. Nós pudemos lamentar-nos porque temos olhos na cara para ver o nível de vida que os asalariados têm "lá fora".
Portanto, estás a dizer que, por exemplo na tua posição, não há nada, rigorosamente nada, que possas fazer e vender, com baixa necessidade de capital? É uma afirmação do carago. Nadinha?
E o que diabo é falta de interesse?
O tema da herança, e da vantagem que isso produz é um tema complicado. Sem dúvida que parece injusto alguém jogar o jogo da vida no modo fácil. Mas a realidade é mais complicada do que isso. A grande vantagem é cultural, e de educação, não é de capital. Um gajo rico e burro, rapidamente deixa de ser rico e fica a ser só burro.
Acidentalmente, a meio do século passado, a revolução cultural chinesa criou uma experiência social nesta área, com a revolução cultural. As conclusões são verdadeiramente surpreendentes. Este artigo tem um resumo de um paper, e o link para o paper. Vale a pena ler:
A generalidade das famílias de elite pré-revolução cultural, que perderam tudo na revolução, eram de elite de novo duas gerações depois. Do nada, voltaram ao topo. A razão é cultural, é uma atracção pelo risco, pelo empreendedorismo.
Já eu andei em escola pública, e vários dos meus colegas de secundário montaram pequenos negócios. Estamos a falar de oficinas, pastelarias, cafés. Talvez 50/50 entre herdados e montados do zero. Dos colegas de faculdade há dois ou três que foram pela via do empreendedorismo, todos do zero.
Portanto, há claramente um desvio de amostragem. Quando a amostra é de gente rica, herdam activos. Zero pessoas surpreendidas.
Falhar é inteiramente natural. Só 20% se safam. É uma actividade arriscada. Não tem a ver primariamente com o acesso ao capital, excepto se as necessidades de arranque tiverem sido subestimadas. Não há capital que sustente uma empresa em prejuízo.
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u/sergiosgc Jul 17 '24
Sim. Aversão ao risco. Inteiramente compreensível, até porque é de facto uma actividade de risco. Não podem é depois lamentar a ausência de recompensa associada à ausência de risco. É uma escolha. Como todas as escolhas na vida, faz-se a escolha e vive-se com os resultados, sem terciarizar a culpa.