A empresa onde trabalho tem sido sempre sólida principalmente por ter uma carteira de clientes diversa.
Um cliente nosso de repente declarou insolvência, e o administrador de insolvência deu como solução: a empresa tem 25 milhões em dívida e 4 milhões em património, primeiro vêm os trabalhadores, bancos, estado.... No entanto a empresa é viável se concordarem em continuar a trabalhar conosco, havendo compromisso de pagarmos estes novos trabalhos a 90 dias, e o que está para trás vamos fazer um plano de pagamento com os lucros dos novos trabalhos. MAS isto só é viável com a vossa ajuda.
Nós aguentámos e aceitámos a proposta apesar de nós deverem 700.000, essa empresa é hoje saudável. No entanto pelo menos 2 empresas mais pequenas faliram e fecharam portas à custa da insolvência desta, levando 50 pessoas para o desemprego.
O normal é receber a 90, por vezes 120dias.
Parece que só custa os primeiros meses, agora imagina o patrão do post, que fatura 900€ por dia só com este trabalhador, 22 dias por mês, 66dias em 3 meses, são 59400€ de FATURAÇÃO. E ele investiu em maquinaria, pagou os salários, eletricidade, seguros, etc. E de repente esse cliente começa a falhar, e com jeitinho arranja uma desculpa para protelar mais um pouco, quando o patrão se farta e rejeita entregar mais trabalho a dívida já são 100k. Será que a empresa aguenta? Será que o trabalhador que acha que recebe pouco vai dizer ao patrão que como ele não recebeu, aceita um corte no salário?
Lamento, mas custa-me perceber a prática comum de receber a 90 dias... Quando vou ao supermercado não pago a 90 dias. Nem a 90 minutos. Porque é que isto continua a ser usual nas empresas??
Basicamente deverá ter origem no sentido de facilitar a venda do produto ao revendedor e tornou-se prática.
Em alguns negócios é mais sustentável que noutros pelas brutais margens brutas.
Compras a 20cent, vendes-me a 1€, 80% é "lucro"! Eu revendo a 1.90€ a alguém que instala o produto valorizando-o, e o cliente final paga a 3€.
Com esta margem podes "despejar" na minha loja e dar-me 90 dias para pagar se eu comprar muito stock. Eu vou vendendo mas demora tempo a escovar tudo, por isso dou só 30dias para pagarem porque estou quase a ter que te pagar a ti. O instalador comprou-me só o que precisava e quando precisava, por isso recebe "na hora" do cliente final mesmo a tempo de o dinheiro fazer o trajecto inverso do produto.
Uma empresa ultra-estável pode deixar de ser viável de um mês para o outro, é muito comum. Mas em Portugal, a maioria das PMEs são instaveis e estão vulneráveis a uma mera brisa de vento.
Como já disseram por aqui, basta um erro da AT ou um cliente não pagar ou atrasar-se no pagamento, e o patrão tem de estar a meter dinheiro do próprio bolso para pagar salários, porque se não o fizer não só estraga a vida aos seus colaboradores, como apanha com multas pesadas, mesmo que a culpa seja do cliente que não pagou. Ironicamente o caso mais recente foi de um patrão que teve de pagar 6 meses salários com créditos pessoais e para a empresa, porque o cliente não pagou dentro do prazo. Quem era o cliente? O Estado.
Tribunais? Muitas vezes mais vale cagar no cliente que não pagou, diria que até 50 mil euros de dívida não vale a pena. E mesmo acima disso, um cliente insolvente é imune a tudo o que possas fazer legalmente.
Ludribiar as leis? Se fosse isso, quase todos os patrões dormiam tranquilos. Os problemas de cashflow numa empresa são muito mais duros que ter medo de ser descoberto a aldrabar algumas leis (embora a maioria das PMEs o faça, para mais uma vez conseguir ter cashflow). As leis em Portugal são predatórias ao ponto de que chegas a pagar imposto sobre imposto, e imposto sobre rendimento que a empresa não auferiu.
Se formos "certinhos" e considerarmos que uma empresa não viável é para fechar, então vais ter uma taxa de desemprego do tamanho da muralha da China.
Estamos todos a tentar fazer para sobreviver. Naturalmente que há patrões fdp, especialmente em empresas muito maiores que as ditas PMEs.
Mas em Portugal é extremamente dificil ter negócio próprio, por isso é que as empresas evitam sempre ter cá sede ou o núcleo do negócio (direção efectiva). Infelizmente, a maioria não pode faze-lo, e cá fica com a sua PME, por um lado a ser sovada pela AT, por outro pelos clientes, e por outro pelos colaboradores.
Diria que para uma PME, o patrão e o colaborador estão ela-por-ela em termos de fragilidade. Não diria numa PME que o colaborador é o elo mais fraco, como regra geral. O patrão tem muito mais a perder. E muitos desistem e vão trabalhar por conta de outrém porque não aguentam o stress eterno que é gerir um negócio.
Basta, durante um curto periodo de tempo, trabalhares para uma grande encomenda de um cliente e este se atrase nos pagamentos. Ficas com todos os problemas acima mencionados.
A gestão de fluxo de caixa para uma pequena empresa não é fácil e nem sempre consegues acumular o suficiente de um ano para o outro (IRC). Nem sempre tudo se resume a viabilidade da empresa.
Talvez não seja. Mas não me parece que o país esteja pronto para ver uma taxa de desemprego para aí nos 30% quando fecharem todos os cafés/restaurantes/mercearias que para aí há.
É fácil falar, mas a verdade é que 80% não são viáveis, não, e têm um prazo de validade até tudo descambar. E as que são viáveis são as que mais exploram.
Num mundo em que só são viáveis empresas em que as receitas e custos são altamente previsíveis, a maioria dos sectores de actividade da nossa economia não existiriam.
Isto já não é só não teres noção do que é ser investidor mas também de como funciona a economia.
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u/faust127 Jul 16 '24
Porque é que "não dormes bem à noite?" - "Quem não deve, não teme."